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Banca FGV na OAB: o estilo das questões e como treinar
A FGV não pergunta o que você decorou: ela narra um caso e pede a saída jurídica. Este guia mostra como o enunciado é montado, como os distratores são construídos e como treinar para não cair neles.
Atualizado em 14 min de leitura
Quem é a FGV e o que muda quando a banca é ela
A Fundação Getulio Vargas é a instituição responsável pela elaboração e pela aplicação do Exame de Ordem Unificado. É a mesma banca em todas as edições e em todo o país, o que produz um efeito raro entre provas jurídicas: o estilo é estável e, portanto, treinável.
Essa estabilidade vale mais do que parece. Em concursos que trocam de banca a cada edital, estudar o padrão do examinador é aposta. Na OAB, não é: o formato do enunciado, o tipo de comando e a maneira de construir alternativas erradas se repetem exame após exame. Quem trata isso como conteúdo a ser estudado — e não como detalhe — resolve as mesmas questões em menos tempo e com menos erro bobo.
Há uma segunda razão para levar o estilo a sério. A 1ª fase não publica conteúdo programático por tópico, então o candidato não recebe uma lista oficial do que estudar. O padrão das questões acaba sendo a informação mais concreta disponível sobre o que a banca espera. Se você ainda não viu a estrutura da prova e o peso de cada disciplina, comece pelo guia Exame de Ordem 1ª fase: como é a prova e o que estudar e volte aqui.
A anatomia de uma questão casuística
A questão típica da FGV não começa com "assinale a alternativa correta sobre". Ela começa com uma história. Aparecem personagens com nome, uma situação concreta, às vezes datas e valores, e uma ou mais providências já tomadas por alguém. Só no final vem a pergunta.
Desmontando o enunciado, você encontra quase sempre três camadas:
- O cenário. Quem é quem, o que aconteceu, em que qualidade cada personagem age. Parte disso é enfeite; parte define a resposta.
- O dado decisivo. Um detalhe — a qualidade de uma das partes, o momento processual, a existência de um contrato anterior, um prazo já transcorrido — que muda a resposta inteira se você não reparar nele. Quase toda questão tem um.
- O comando. O que exatamente se pergunta, e sob qual referência: o Estatuto, o código, o entendimento sumulado, a lei específica.
Um exemplo do formato, no molde de Ética: o enunciado descreve um advogado que recebe uma proposta de causa, menciona que ele já atendeu a parte contrária em consulta anterior sobre o mesmo assunto, e pergunta qual conduta é admitida. O detalhe do atendimento anterior é o dado decisivo — quem passa reto por ele responde sobre outra situação.
Hábito que vale nota: ao terminar de ler o enunciado, diga para si mesmo, em uma frase, qual é o dado decisivo. Se você não consegue apontar nenhum, releia — provavelmente pulou o que interessa.
Leia o comando antes das alternativas
Em prova casuística, a ordem de leitura importa tanto quanto o conhecimento. Quem lê as quatro alternativas antes de saber o que foi perguntado entrega a própria leitura ao distrator: as opções passam a soar todas plausíveis, porque todas tratam de coisas verdadeiras sobre o tema.
O comando da FGV costuma vir com uma referência que restringe a resposta. Preste atenção nas fórmulas:
- "à luz do Estatuto da OAB" ou "segundo o Código de Ética e Disciplina" — a resposta é a da norma citada, ainda que outra solução pareça mais razoável na prática.
- "de acordo com o Código de Processo Civil" — letra da lei, e não doutrina.
- "segundo o entendimento sumulado" — a resposta é a súmula, mesmo que o texto legal isolado sugira outra coisa.
- "assinale a alternativa que apresenta a conduta correta do advogado" — pede a conduta esperada, não a que a maioria adota.
- "assinale a alternativa incorreta" — inverte tudo. Sublinhe.
Além da referência, identifique o verbo do comando. "O advogado deve" pede o dever; "o advogado pode" pede a faculdade; "é vedado" pede a proibição. Trocar o verbo na leitura é errar uma questão que você sabia responder.
Como a FGV monta os distratores
Alternativa errada da FGV raramente é absurda. Ela é quase certa — construída a partir da resposta correta, com uma peça trocada. Reconhecer o tipo de troca é uma habilidade separada do conteúdo, e é o que mais rende em treino.
| Armadilha | Como aparece na alternativa | Pergunta que desarma |
|---|---|---|
| Conceito vizinho | Usa o nome de um instituto parecido no lugar do correto: prescrição por decadência, impedimento por suspeição, nulidade por anulabilidade, competência por capacidade. | "É exatamente este instituto, ou o irmão dele?" |
| Prazo alterado | Reproduz a frase da norma com fidelidade, mas troca o número: cinco dias vira dez, quinze vira trinta. | "Eu sei este prazo, ou estou aceitando pelo resto da frase estar certo?" |
| Generalização | Insere "sempre", "nunca", "em qualquer hipótese", "em nenhum caso", transformando regra com exceção em regra absoluta. | "Existe alguma exceção a isso? Se existe, a alternativa caiu." |
| Condicionamento indevido | Condiciona a conduta à autorização ou ao consentimento do cliente, quando a norma não exige isso — ou quando a autorização não afasta a vedação. | "Quem decide isso: a lei ou a parte?" |
| Verdade fora de lugar | A afirmação é correta em tese, mas não responde ao que foi perguntado no caso. | "Isto responde ao comando, ou só é verdade?" |
Note o que essas cinco têm em comum: nenhuma se derrota com mais teoria. Todas se derrotam com leitura desconfiada da alternativa, palavra por palavra, comparada com o caso narrado.
A armadilha da autorização do cliente
Essa merece seção própria porque é a mais característica das questões de Ética, e uma das que mais derruba candidato bem preparado.
O molde é sempre o mesmo. A alternativa descreve uma conduta e acrescenta uma condição de aparência inofensiva: "desde que autorizado pelo cliente", "mediante concordância expressa do constituinte", "se houver consentimento da parte". A frase soa cuidadosa, quase ética, e por isso convence.
O erro está em confundir dois planos. Existem deveres do advogado que não estão à disposição do cliente: são obrigações perante a Ordem e perante a função, e nenhuma autorização particular os dispensa. Quando a alternativa transfere para o cliente uma decisão que a norma já tomou, ela está errada — mesmo que a conduta descrita pareça razoável.
O inverso também aparece, e é a versão que engana quem já conhece a armadilha: às vezes a norma exige mesmo a ciência ou a autorização do cliente, e a alternativa correta é justamente a que traz essa condição. Por isso a pergunta certa não é "tem autorização? então está errada", e sim:
Quem é o titular da decisão nesse ponto — a lei, a Ordem ou o cliente? Se for a norma, a autorização do cliente não salva a conduta. Se a norma delegou ao cliente, a ausência de autorização é que torna a conduta irregular.
Um método de quatro passos para resolver
Método não substitui matéria estudada, mas evita perder ponto que você já tinha. Quatro passos, na ordem:
- Leia o comando primeiro. Vá ao final do enunciado, descubra o que se pergunta e sob qual referência normativa. Volte então ao início para ler o caso sabendo o que procurar.
- Identifique o dado decisivo. Leia o cenário caçando o detalhe que muda a resposta: a qualidade das partes, o momento, o prazo, o vínculo anterior. Marque no caderno.
- Formule a resposta antes de olhar as opções. Em uma frase mental, responda ao comando com o que você sabe. Chegar às alternativas com uma hipótese pronta reduz drasticamente a força dos distratores.
- Elimine por defeito, não por simpatia. Passe pelas quatro alternativas procurando o defeito de cada uma — conceito trocado, prazo alterado, palavra absoluta, condição indevida, verdade fora de lugar. A que sobrar sem defeito é a resposta.
O passo 4 é o que separa quem acerta com segurança de quem acerta com dúvida. Escolher a alternativa "que parece mais certa" é decisão por conforto; eliminar por defeito identificado é decisão por prova. E, no simulado, só a segunda gera aprendizado — porque você registra qual defeito havia em cada opção descartada.
Ética: uma prova dentro da prova
Ética Profissional e Estatuto da OAB tem um estilo próprio, distinto do resto do caderno, e vale conhecê-lo separadamente.
Nas demais disciplinas, a pergunta é sobre o que a lei diz. Em Ética, a pergunta é quase sempre sobre o que o advogado deve fazer em uma situação delicada — conflito de interesses, honorários, publicidade, sigilo, relação com colega, renúncia ou substabelecimento de mandato, atuação perante a Ordem.
Isso produz três diferenças práticas:
- A resposta tende à conduta mais institucional. Entre uma saída informal e conveniente e outra formal, documentada e comunicada a quem de direito, a norma costuma estar no segundo caminho. Não é regra absoluta, mas é a inclinação do conjunto.
- O conteúdo é fechado e verificável. Estatuto, Regulamento Geral e Código de Ética e Disciplina. Você consegue conferir a resposta na fonte, o que torna a correção de questões muito mais produtiva do que em disciplinas com doutrina divergente.
- As armadilhas de autorização e de generalização concentram-se aqui. São o par de distratores mais frequente do bloco.
Como é o maior bloco isolado da prova, cada ponto de melhora em Ética rende mais que em qualquer outra matéria. Treinar o estilo dessa disciplina é o investimento de melhor retorno do exame.
O que muda nas demais disciplinas
Saindo de Ética, o eixo se desloca do dever para a norma. O caso continua sendo narrado, mas o que se cobra é enquadramento: qual instituto se aplica, qual prazo incide, qual medida cabe, qual consequência a lei atribui àquele fato.
- Disciplinas processuais (Processual Civil, Processual Penal, Processual do Trabalho): dominam prazo, competência, cabimento de recurso e momento processual. O dado decisivo do enunciado costuma ser quando a coisa aconteceu, e não o quê.
- Disciplinas materiais (Civil, Penal, Tributário, Administrativo, Trabalho, Empresarial): dominam a definição do instituto e suas exceções. O distrator preferido é o conceito vizinho.
- Disciplinas de dois pontos (Filosofia do Direito, Direitos Humanos, Eleitoral, Internacional, Financeiro, Ambiental, ECA, Consumidor, Previdenciário): o recorte é estreito e repetitivo. As duas questões costumam sair de um conjunto pequeno de temas, e o enunciado é mais curto e mais direto.
Em todas elas, o que não muda é o método de leitura: comando primeiro, dado decisivo depois, resposta formulada antes das opções, eliminação por defeito no fim.
As cinco horas: gestão de tempo em prova casuística
Enunciado de caso consome mais tempo de leitura que enunciado de definição. São 300 minutos para 80 questões e, descontado o tempo de transcrição e conferência do cartão-resposta, sobram cerca de 3 minutos e 20 segundos por questão, em média.
Três decisões que protegem esse orçamento:
- Duas passadas. Na primeira, resolva o que você reconhece e marque as duvidosas sem brigar com nenhuma. Na segunda, volte às marcadas sabendo exatamente quanto tempo sobrou.
- Limite de permanência. Estabeleça um teto — algo como cinco minutos — para qualquer questão isolada na primeira passada. Questão que passa do teto vai para a marcação, sem exceção. Uma questão vale um ponto; o mesmo que qualquer outra.
- Transcrição em blocos. Passe as respostas para o cartão ao fechar cada disciplina, e não tudo no fim. Como os blocos de disciplina são contíguos no caderno, esse corte é natural.
Vale treinar a resistência de leitura antes do dia da prova. Cinco horas lendo casos jurídicos cansam de um jeito que não aparece em sessões de estudo de uma hora, e a queda de atenção da quarta hora derruba questões que você acertaria na primeira. Dois simulados completos e cronometrados resolvem a maior parte desse problema.
Como usar provas anteriores para treinar o padrão
Provas anteriores servem para duas coisas diferentes, e misturar as duas desperdiça o material.
Uso 1 — minerar o padrão. Resolva por disciplina, sem cronômetro. Ao corrigir, escreva para cada alternativa errada qual armadilha ela usou. Depois de umas cinquenta questões você começa a reconhecer o defeito antes de terminar de ler a opção. É esse reconhecimento, e não a quantidade de questões resolvidas, que produz o ganho.
Uso 2 — simular a prova. Caderno inteiro, cinco horas, sem consulta e sem pausa longa. Serve para calibrar tempo e resistência, não para aprender. Duas ou três vezes no cronograma bastam.
Monte um caderno de erros classificado por causa, porque o tratamento muda conforme o tipo:
- Não sabia o conteúdo — volte à matéria.
- Li errado o comando — o problema é de método, não de estudo. Aplique os quatro passos.
- Caí no distrator — anote qual das cinco armadilhas pegou você. Se um tipo se repete, você achou seu ponto cego.
Confira se a questão ainda vale. Provas antigas podem cobrar norma alterada ou entendimento superado. Antes de gravar uma resposta de exame mais afastado, verifique se a regra citada continua em vigor.
Erros comuns de quem treina com a FGV
- Resolver questão em volume, sem corrigir a fundo. Trezentas questões resolvidas na correria ensinam menos que cem corrigidas com a explicação de cada alternativa errada.
- Acertar por eliminação e seguir em frente. Se você não sabe dizer por que a resposta está certa, marque a questão como erro. No exame, a mesma dúvida com alternativas diferentes vira erro de verdade.
- Estudar só teoria e deixar questões para o fim do cronograma. O reconhecimento de padrão leva semanas para se formar e não se improvisa na reta final.
- Ler as alternativas antes do comando. É o erro mais barato de corrigir e o mais caro de manter.
- Confiar na memória de questão repetida. Refazer o mesmo exame decorado dá sensação de domínio sem produzir nada. Alterne exames e intercale disciplinas.
- Ignorar o cansaço. Treinar sempre em blocos curtos e nunca em jornada longa deixa a quarta hora de prova completamente sem ensaio.
Um roteiro de seis semanas para treinar o estilo
Este roteiro trata do treino de padrão, e supõe que você já esteja estudando o conteúdo em paralelo:
- Semana 1: um exame anterior completo, resolvido por disciplina e sem cronômetro. Ao corrigir, classifique cada erro pela causa. O objetivo aqui é diagnóstico, não nota.
- Semana 2: foco em Ética. Resolva todas as questões do bloco nos últimos exames que você tiver e anote, para cada erro, qual armadilha pegou você.
- Semana 3: disciplinas de maior peso depois de Ética, resolvidas em blocos de vinte questões com correção comentada.
- Semana 4: primeiro simulado completo, cronometrado em cinco horas, com transcrição de cartão. Registre onde o tempo escapou.
- Semana 5: revisão dirigida pelos erros do simulado, mais uma varredura nas disciplinas de duas questões — material curto, retorno rápido.
- Semana 6: segundo simulado e revisão final do caderno de erros. Nada de conteúdo novo nesta semana.
Se a sua dificuldade ainda é anterior a isso — montar rotina, escolher material, não abandonar na terceira semana — comece pelo guia Como estudar para concurso do zero. E para entender o peso de cada disciplina antes de distribuir o esforço, veja Exame de Ordem 1ª fase: como é a prova e o que estudar.
Perguntas frequentes
A prova da FGV na OAB é decoreba ou interpretação?
É aplicação. O enunciado narra um caso concreto com personagens e pede a saída jurídica correta, então saber a definição de cor não basta: é preciso encaixar a norma na situação descrita. Decorar prazos e conceitos continua necessário, mas como insumo, não como resposta.
Como identificar um distrator da FGV?
Procure o defeito na alternativa em vez de procurar a que parece certa. Os moldes mais frequentes são o conceito vizinho no lugar do correto, o prazo com número trocado, a generalização com sempre ou nunca, a conduta condicionada à autorização do cliente e a afirmação verdadeira que não responde ao comando.
Quantas provas anteriores devo resolver antes do exame?
Não existe número mágico, e quantidade sem correção a fundo rende pouco. Quatro exames completos, corrigidos com a explicação de por que cada alternativa errada está errada, ensinam mais do que dez resolvidos às pressas.
A FGV repete questões de exames anteriores?
Não trabalhe com essa premissa. O que se repete de forma verificável é o formato do enunciado, o tipo de comando e a maneira de montar as alternativas erradas — e são esses elementos que valem o treino, não a expectativa de reencontrar a mesma questão.
O estilo da FGV muda entre Ética e as outras disciplinas?
Muda o eixo da pergunta. Em Ética, cobra-se a conduta que o advogado deve adotar, com base no Estatuto, no Regulamento Geral e no Código de Ética e Disciplina. Nas demais, cobra-se o enquadramento do caso na norma: qual instituto, qual prazo, qual medida cabe. O formato casuístico do enunciado é o mesmo nos dois casos.
Vale a pena fazer simulado cronometrado de cinco horas?
Vale, e dois ou três bastam. Enunciado de caso cansa mais que enunciado curto, e a queda de atenção da quarta hora só aparece em jornada longa. O simulado também treina a transcrição do cartão-resposta, que é onde muita prova boa se perde.
Fontes
- Cadernos de prova e gabaritos oficiais do Exame de Ordem Unificado publicados pela FGV
- Editais do Exame de Ordem Unificado publicados pelo Conselho Federal da OAB e pela FGV
- Levantamento próprio sobre a estrutura das provas objetivas dos Exames 43º, 44º, 45º e 46º